Cloud Native Desde o Dia Zero: Como a CERC Conecta Mais de 80% dos Participantes do Mercado de Cartões do Brasil
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Cloud Native Desde o Dia Zero: Como a CERC Conecta Mais de 80% dos Participantes do Mercado de Cartões do Brasil

TL;DR — A CERC nunca operou on-premise. Desde a fundação, a infraestrutura que sustenta o registro de recebíveis do mercado financeiro brasileiro foi construída 100% na nuvem do Google Cloud. Hoje, o resultado é uma plataforma que processa 100 mil transações por segundo, armazena petabytes de dados, e atende mais de 80% das credenciadoras e subcredenciadoras do mercado de cartões do país. Este artigo conta como chegamos aqui — e por que o Cloud Spanner é a peça central dessa história.


O Que a CERC Faz (E Por Que Isso Importa)

A CERC é uma Infraestrutura do Mercado Financeiro (IMF) — uma das entidades que formam a base sobre a qual o sistema financeiro brasileiro opera. Nossa missão é dar transparência e segurança ao registro, análise e controle de liquidação de ativos financeiros usados como garantia em operações de crédito.

Na prática, isso significa o seguinte: quando um estabelecimento comercial usa seus recebíveis de cartão de crédito como garantia para obter um empréstimo, é a CERC que registra, valida e dá autenticidade a essa operação. Sem esse registro centralizado, a assimetria de informação entre credores e devedores tornaria o mercado de crédito mais caro, mais lento e mais arriscado.

A escala desse trabalho é significativa. A CERC processa recebíveis que sustentam bilhões de reais em comércio diário. E o mercado de recebíveis de cartão é apenas uma das classes de ativos que registramos. Duplicatas, recebíveis do agronegócio e outras categorias seguem o mesmo caminho.


Por Que Cloud Native Desde o Início

Quando a CERC foi fundada, uma decisão arquitetural definiu tudo o que viria depois: não haveria infraestrutura on-premise. Zero. Nenhum rack, nenhum data center próprio, nenhum hardware para escalar manualmente.

Essa não foi uma decisão trivial. Estávamos criando uma IMF — uma entidade regulada do sistema financeiro — e a expectativa do mercado era de ambientes tradicionais, controlados e fisicamente isolados. Mas a natureza do problema que resolvemos exigia uma abordagem diferente.

Antes da operação em produção, não havia informações precisas para estimar o volume de transações que o mercado demandaria. Podiam ser milhares. Podiam ser milhões. A incerteza era a única certeza. E em um cenário de incerteza de escala, a nuvem não é uma opção — é a única resposta racional.

Na prática, a escolha pelo Google Cloud foi natural: precisávamos de um parceiro com experiência comprovada em escala massiva, que oferecesse não apenas infraestrutura, mas um ecossistema de serviços gerenciados que nos permitisse focar no problema de negócio — e não em gerenciar servidores. A história da CERC se desenvolveu junto do Google Cloud, e essa co-evolução moldou a arquitetura que temos hoje.


A Arquitetura: Cada Peça No Seu Lugar

A infraestrutura da CERC é composta por serviços do Google Cloud que se complementam para atender requisitos simultâneos de escala, consistência, disponibilidade e segurança.

Cloud Spanner — O Coração Transacional

O Cloud Spanner é a peça mais crítica da nossa arquitetura. É o banco de dados onde as transações de registro de recebíveis acontecem — e onde consistência não é negociável.

O que torna o Spanner único no mercado é algo que, por muito tempo, foi considerado impossível em ciência da computação: combinar consistência forte (ACID) com escalabilidade horizontal ilimitada em um banco de dados distribuído globalmente.

Bancos de dados tradicionais te forçam a escolher: ou você tem consistência forte com escala limitada (bancos relacionais clássicos), ou tem escala ilimitada com consistência eventual (bancos NoSQL). O Spanner elimina esse trade-off.

Para a CERC, isso se traduz em capacidades concretas:

  • Escala sob demanda: aumentamos e diminuímos o poder de processamento sem parar o ambiente. Em um mercado financeiro onde janelas de manutenção são inaceitáveis, isso é fundamental.
  • 99,999% de disponibilidade: o famoso “cinco noves” — menos de 5 minutos de downtime por ano. Para uma IMF que processa transações que sustentam o crédito de milhões de empresas, indisponibilidade não é uma opção.
  • Consistência ACID distribuída: toda transação é atômica, consistente, isolada e durável — mesmo quando os dados estão distribuídos entre múltiplos nós. Em um sistema financeiro, uma transação parcialmente aplicada é pior do que uma transação que falhou.

A CERC não começou com o Spanner. Inicialmente, utilizávamos o Cloud SQL — um banco de dados relacional gerenciado, perfeitamente adequado para os volumes iniciais. À medida que o mercado de recebíveis cresceu, a migração para o Cloud Spanner foi a decisão que nos permitiu escalar sem comprometer a integridade transacional.

Na minha experiência, o momento em que migramos para o Spanner foi um ponto de inflexão. A confiança de saber que o banco escala horizontalmente sem comprometer consistência transacional muda a forma como você projeta sistemas. Você para de pensar em workarounds para limitações de infraestrutura e passa a pensar no problema de negócio.

BigQuery — A Camada Analítica

Se o Spanner é o coração transacional, o BigQuery é o sistema nervoso analítico. É onde processamos terabytes de dados para gerar insights, relatórios regulatórios e compartilhar informações com os outros players do mercado.

O BigQuery permite que a CERC ofereça transparência ao ecossistema financeiro — um dos nossos valores fundamentais. Os dados de recebíveis processados e analisados no BigQuery alimentam desde modelos internos de risco até os relatórios que o Banco Central exige.

Google Kubernetes Engine (GKE) — A Camada de Aplicação

Toda a camada de aplicação da CERC roda em microsserviços orquestrados pelo GKE. Isso nos dá flexibilidade para escalar serviços individuais de forma independente, fazer deploys sem downtime e manter a agilidade de desenvolvimento mesmo com um sistema em produção que processa 100 mil transações por segundo.

O GKE é também onde servimos nossas APIs, permitindo que participantes do mercado se integrem à CERC de forma programática e escalável.


100 Mil Transações por Segundo

Esse é o número que define a escala da operação. 100.000 transações por segundo — cada uma delas registrando, validando ou consultando recebíveis que representam dinheiro real de empresas reais.

Para colocar em perspectiva: quando o projeto de recebíveis de cartão entrou em produção, não existia benchmark de mercado para o volume que seria processado. A regulação do Banco Central era clara nos requisitos, mas o volume real só seria conhecido quando o sistema estivesse operando.

A arquitetura cloud native da CERC — com Spanner escalando processamento sem parar, GKE orquestrando microsserviços, e BigQuery processando a camada analítica — é o que permite absorver esse volume com estabilidade. Não é um pico eventual. É a operação normal.

E o armazenamento acompanha: petabytes de dados mantidos, processados e disponíveis para consulta pelos participantes do mercado.


O Que Significa Ser uma IMF Inovadora

O mercado de Infraestruturas do Mercado Financeiro é, por natureza, conservador. As IMFs são entidades reguladas que formam a espinha dorsal do sistema financeiro — e a expectativa geral é de estabilidade acima de tudo.

A CERC desafia essa premissa. Ser cloud native desde o dia zero, em um segmento onde on-premise era o padrão, foi um ato de inovação. Mas inovação na CERC vai além da escolha de infraestrutura.

É sobre como construímos software. É sobre ter um time de engenharia que opera com autonomia, que usa as melhores ferramentas do mercado, que resolve problemas de escala que poucas empresas no Brasil enfrentam. É sobre um ambiente onde engenheiros trabalham com Cloud Spanner, BigQuery, Kubernetes, Apache Airflow, agentes de IA autônomos — e onde cada uma dessas tecnologias resolve um problema real, não um requisito de currículo.

No dia a dia, isso se traduz em resolver problemas que não têm solução pronta no mercado. Quando o Banco Central definiu as regras para registro de recebíveis de cartão, não existia um playbook de como processar esse volume com essa criticidade. A solução foi construída aqui dentro — e continua evoluindo.

Na minha visão, o próximo grande salto está na hipervalorização dos dados que já temos. Não basta registrar e armazenar — precisamos extrair inteligência, identificar padrões e gerar valor a partir da massa de informações que processamos diariamente. Criar essa cultura de dados no mercado financeiro brasileiro é um dos objetivos que me motivam, e a nuvem é a base que torna isso possível.


O Que Vem a Seguir

A classificação de recebíveis de cartão é apenas uma das classes de recebíveis — representando cerca de 15% do total de recebíveis da economia brasileira. Todas as demais categorias, incluindo duplicatas, recebíveis do agronegócio e outros, seguem o mesmo caminho de digitalização e registro centralizado.

A visão da CERC é transformar todos os recebíveis da economia em ativos plenamente utilizáveis pelos seus donos, para que isso resulte em mais acesso a crédito para financiar o crescimento dos negócios.

Nessa jornada, a exploração de Apigee para um modelo API-first em toda a organização, o uso de Machine Learning para novos serviços, e a expansão da capacidade analítica com BigQuery são investimentos concretos que estão sendo realizados.

A infraestrutura está pronta. A escala está provada. O próximo capítulo é expandir o impacto — e a nuvem será essencial nesse processo.


Tecnologias

CamadaTecnologia
Banco de dados transacionalCloud Spanner
Processamento analíticoBigQuery
Orquestração de containersGoogle Kubernetes Engine (GKE)
Gerenciamento de APIsApigee
Orquestração de dadosApache Airflow (Cloud Composer)
InfraestruturaGoogle Cloud (100% cloud native)

A CERC é a infraestrutura do mercado financeiro que atende mais de 80% das credenciadoras e subcredenciadoras do mercado de cartões do Brasil — 100 mil transações por segundo, petabytes de dados, zero infraestrutura on-premise. Se você quer trabalhar em problemas de escala real, com tecnologia de ponta e impacto direto no sistema financeiro brasileiro — estamos contratando.


Este post foi escrito por: Vitor Melon | Head de Engenharia — Plataforma de Arranjos de Pagamentos.